
Salto – Quais têm sido os principais desafios para promover a alfabetização no Brasil, ao longo do tempo?
Cecília Goulart – Na minha opinião, os principais desafios para alfabetização, podem ser encontrados desde o início da colonização, e desde então esses desafios têm sido, prioritariamente, políticos. O desejo mesmo de que esse povo se alfabetize, de que esse povo participe, surge dos movimentos sociais, que buscam construir os caminhos desse país. Isso tem uma significação importante no processo de alfabetização brasileiro. E há outros caminhos também que nós não podemos negar, que são caminhos ligados à formação de professores, ligados à questão ainda metodológica, mas eu acho que os principais obstáculos são obstáculos políticos, obstáculos de prioridade à educação, de investimentos em educação.
Salto – A partir dos testes realizados pelo SAEB, muito se tem questionado a respeito do papel da escola e do chamado “fracasso escolar”. Você poderia comentar sobre isso?
Cecília Goulart – Essa é uma questão muito complexa, porque enquanto nós tínhamos só as crianças da classe média e da classe alta freqüentando a escola, nós não enfrentamos, ou enfrentamos de maneira muito pequena, a questão do fracasso escolar. A partir de meados do século passado, do século XX para cá, com a entrada das classes populares na escola, é que nós começamos a ter que nos preocupar com o fracasso escolar. E o fracasso escolar significa fracasso escolar das classes populares. E principalmente na 2ª metade do século XX nós tivemos estudos, em várias áreas do conhecimento, que foram nos mostrando e nos revelando muitas facetas do processo de aprendizagem, do processo de ensino e também do processo de alfabetização, que foram abrindo para nós novas perspectivas de pensar o ensino da leitura e da escrita e da escola, e a compreensão também maior desse fracasso.
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